ZINGARA por Vera Vianna

 

cigana

Gitana…  Gipsy  ou simplesmente  Cigana. Sempre tive fascínio por essa cultura . Cheia de mistérios e  simbolismos. Nem mesmo o   próprio povo,  acredito, conhece esse extenso e tão antigo  universo, onde   não se sabe onde começa a verdade e termina a lenda. Estão espalhados  por muitas regiões , muitos  países, carregam as mais diversas etnias.  Todas as histórias que os rodeiam são baseadas em  suposições,  informações as mais diversas , mistérios .  São conhecidos como errantes, desordeiros e até  subversivos a qualquer sistema. Místicos,  descriminados,  com espírito livre e  viajantes. Sua tradição se  espalhou criando um   mundo único. Povo alegre, com música e dança no sangue, inspiram. Quando era jovem não resistia nas ruas a uma abordagem  para uma lida de mão. Não acreditava, mas  me divertia, gostava do ritual,  de  vê‐los em ação.  Adoro suas roupas coloridas, adornados sempre com  muito ouro, fitas, chapéus coloridos, saias  flutuantes. Lúdico. Entre o misticismo e a realidade  transitam. Isso tudo é só pra dizer que carrego uma alma cigana, nasci misturada de corpo e alma. Cigana tropical,   abuso de balagandãs , patuás, anéis ,chapéus ,sem pudor.  Dentro de mim  existe um chamado , tenho  muitos horizontes e pressa  de alcançá‐los. Não fico muito tempo sem dar uma  fugida, procurando recantos que me  recicle a mente, me dê espaço   para sentir a delicia de ir e vir.  Curiosa volto a lugares que me encantam  e descubro sempre  novos  detalhes que me fazem enxergar o que tenha escapado. Na verdade o que me deixa transtornada é a  Liberdade.Gosto de sair, só para sentir o prazer de voltar.  Meus olhos vivem aflitos,    são olhos de ver como já disse Jorge Amado .Num vasto mundo desse  ficar  estacionada é um desperdício. Já sabemos desde o primeiro choro que a vida é breve e sem data  marcada. Sou tomada por essa aflição. A do viver,  de preferência o aqui e agora.  Rodando  por vários   lugares   me sinto estrangeira, mesmo que esteja apenas repetindo :Oxente! As línguas me  assaltam,tenho bom ouvido, consigo me comunicar esteja onde estiver e pior, os sotaques são o meu  ponto forte. Assimilo todos. Assim nessa busca insana de sopros de vida  acabo acreditando na imortalidade.

ciganas

Pois é.. na sala aqui de casa tem uma mala aberta  que já me acrescenta adrenalina, sinalizando que em  algum lugar estarei daqui a pouco. Nem  perto, nem  tão longe.   Para um voo cego ando  polindo as  asas, mas decolar já está decidido  .Por um tempo que não sei… ele se determinará. O destino  é claro:  Pasárgada. Abraços de muito carinho, mimos, alegria de reencontros, amigos que me  acompanham a vida toda,  doces e  efusivos  juntando pedaços e fazendo uma ciranda. E de tanto   me   conhecer  também sabem o dia de me deixar  perambular sozinha, respeitam meus   delírios  de  inspiração, quando fico diante do computador jogando minhas palavras e dando forma as  descobertas, registrando ,  na eterna mania de escrever. Ou quando  fico olhando o luar beijar minha  cabeça na varanda aberta ouvindo o ritmo das ondas ,em  qualquer madrugada. Sem regras nem horários,  sem compromissos,  pés no chão,  sol na pele,  mar calmo, água morna e a  vida sendo recordada  , recortando  os bocadinhos felizes, entre gargalhadas que ecoam sempre,  um  inventário de paixões sem as dores, sem arrependimentos, uma ou outra reflexão,  a emoção por  testemunha.  Me sentindo viva, conspirando mais uma vez, evocando todos os sonhos, que dividimos, colorimos, e   contabilizando  os alcançados. O pote de ouro  pode ser apenas uma  caipiroska de mangaba, um  sorvete,  um gosto de fruta madura,  aquelas  que trazem  a infâcia,o cheiro dos temperos , o frescor dos  peixes que invade a casa toda, uma oração  da fé que compartilhamos. E aquela energia que nos  persegue.No final  acaba tudo dando certo e se não der, não nos deixamos vencer, olhamos para o céu,  mudamos o rumo das velas, até o vento se aquietar de novo. A única palavra proibida é desistir,  desacreditar, não tentar.  Quando os olhos cansados pedirem  trégua, um sono necessário, para que o corpo dia seguinte reaja  aos novos encantos  sem sair do prumo.É quando o sentimento pede calma, e é urgente apaziguar. Entre  cigana, cangaceira, guerreira ou mosqueteira as lendas se sobrepõem.  Seguirei extravasando o  excesso das intenções, dos  pecados que ainda esperam serem cometidos, para confirmar que viver  ainda é o melhor presente e se não é fácil, não precisa ser tão difícil.

Essa é a escolha determinante.

 

Por Vera Vianna

Atriz, Jornalista e Produtora Cultural

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vera blog certa 150x150 Não me Retiro...Eu sou Presente...O Retiro dos Artistas é Nosso ...

 

 

 

 

 

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2 comments

  1. LAIS M. P. CUNHA

    Verinha, por mais que suas crônicas me emocionem e me enlevem já não mais me surpreendem, pois seu
    talento de cronista tão comprovado, atua como expectativa da próxima crônica que virá, sempre superando a qualidade de excelência. Anseio por vê-las reunidas na edição de um livro . Parabéns.

  2. vera vianna

    Obrigada Lais. Você sempre me acompanhando nasminhas aventuras, ousadias e sonhos. Agora estamos nesse sonho do livro. Vai sair!Principalmente com as força que vocês me dão. bjsss

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