Um poema de Nêumanne para Isabel

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Isabel, mar e minas

Nas veias de Isabel

corre sangue dos Castro

de seu avô Ageu,

revolucionário de trinta

e prefeito de cidades

abaixo da linha do Equador,

lavada e quarada nas águas

do açudão de Condado.

E também dos Pimentel

de vovô Leone,

comerciante de esperança

em tempos de trabalho duro

pra viver bem na escassez.

Na bateia dos cabelos de Isabel

se garimpa ouro de minas,

como por entre seus lábios

passa o calor do café

plantado no Vale do Paraíba

e no interior de São Paulo.

Nos olhos de minha amada

fulguram fagulhas de esmeraldas

pescadas no mar de Tambaú.

Isabel é meu Brasil que vale a pena:

o Brasil dos Bonifácios,

o Brasil de Tiradentes,

o Brasil de Villa Lobos,

Tia Ciata, Pizindim e Heitor dos Prazeres,

de vaqueiros cavalgando em caatingas

e boiadeiros guiando boiadas em lonjuras,

o Brasil de Antônio Jobim e de Portinari,

o Brasil de camponeses ferindo dedos

ao catar capuchos de algodão

e de operários na fila do ônibus,

dos bondes que não andam mais

e da solidão dos caminhoneiros.

Não esta Pátria picada pelo Aedes aegypti

e corrompida pela zica do roubo

nem este povo entorpecido

pela moléstia da mosca tsé tsé.

Mas o Brasil de nossos pais decentes

e de nossas mães nos ensinando o beabá

na treva seca dos sertões gerais.

O Brasil pisado pelos pés de Isabel,

o País moldado pelas mãos de minha mulher,

é tudo que eu queria legar pro futuro

como uma herança só de paz,

sem medo nem desesperança.

José Nêumanne Pinto São Paulo, 30 de janeiro de 2016

Por José Nêumanne

Poeta, Jornalista e Escritor, é autor de Solos do silêncio – poesia reunida.

Neumann e por JP1 150x150 José Nêumanne Pinto Direto ao Assunto Jovem Pan 27/04/2015

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