SOMOS TODAS ABUSADAS…

 

Depoimento de A. R.

SOMOS TODAS ABUSADAS…

Eram cinco horas da tarde, mais ou menos. Eu andava tranquila pela rua principal de São Leopoldo, na parte dupla da Rua Grande, que na época só tinha casas residenciais. Voltava do ballet.

Vestia uma calça vermelha larga e uma blusa (talvez justa?), carregando uma mochila com os acessórios do ballet e um tênis que havia comprado pouco antes. De repente, sinto algo no meu pescoço —- um canivete —- e alguém que me agarra por trás, tentando baixar minhas calças.

Sem muito pensar, dobrei meu joelho, chutando com toda força o meio das pernas do cara.

 Isso foi numa época em que não havia o discurso do “não reaja”. O cara se curvou de dor, deixando cair o canivete. Peguei o canivete e comecei a gritar pela ajuda do Olímpio (que morava justamente na esquina do acontecido e era meu amigo de colégio).

O cara começou a correr. Percebi que ele estava com minha mochila e fui atrás. Arranquei a mochila dele (acreditem), mas ele conseguiu ainda tirar minha carteira. Foi somente quando o Olímpio abriu a porta da casa e entrei, que me dei conta do que tinha acontecido. Eu tremia e chorava. De medo —- por ele estar com meus documentos e poder me encontrar —- e de raiva, por me sentir invadida e impotente.

Eu devia ter uns 16 anos na época. Nunca mais consegui andar nas ruas sem ter a sensação de que alguém vai me atacar. O tempo não apagou o sentimento.

É a primeira vez que escrevo sobre esse acontecimento, mas sempre que tenho uma oportunidade, conto às pessoas que conheço. Não canso de repeti-la, pois acredito que não devemos ter vergonha do que nos acontece.

Não posso comparar meus sentimentos com os sentimentos de minhas amigas que foram violentadas sexualmente (três de minhas grandes amigas já foram violentadas e me contaram em sigilo com muito sofrimento!), mas posso dizer que precisamos nos unir e dar um basta na falta de respeito, na agressão cotidiana que todas as mulheres sofrem.

imagesNão devemos ter vergonha. São eles que têm que ter vergonha!!!

 

Cantadas, assobios, passar a mão, esfreguões nos ônibus…. tudo isso são sinais de um mesmo processo que incentiva, possibilita e permite que nós sejamos abusadas. Se você enxergar isso, comece a bater palmas para a mulher e se posicione bem ao lado dela, porque ela é uma lutadora, uma pessoa que labuta todos os dias, mesmo que a cada manhã tenha vontade de ser invisível, só para não correr o risco de ser abusada. Vamos fazer uma onda de palmas e nos aproximarmos umas das outras. E os homens que são justos, que amam de verdade as mulheres, juntem-se a nós também. Quem ficará no ridículo vai ser o abusador, e aí JUNTOS podemos denunciar. Se a polícia não consegue dar conta disso, nós podemos.

O que me surpreende é o silêncio e a conivência de homens e mulheres sobre isso. Àquelas mulheres que nunca se sentiram abusadas, podem ter certeza de que SOMOS TODAS ABUSADAS. Basta ver qual mulher poderia afirmar com certeza de que sairia de madrugada às ruas, sozinha e tranquila. Se uma (1) mulher sofre, todas sofremos. Não há meia justiça, nem meio abuso. Não há felicidade sem felicidade da humanidade. Não silencie ou seja conivente. O tempo não cura o sofrimento, mas falar sobre isso pode ajudar outras mulheres não sofrerem em silêncio. Sofrimento “escutado” e partilhado é sofrimento amenizado. Palmas a todas nós mulheres!

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