Relato de estupro

Depoimento de B.

Esse é o relato de estupro sofrido por mim.

Outubro de 2013, havia acabado de voltar para o Brasil depois de passar um ano estudando no exterior. Fui para a cidade de minha família rever parentes e amigos, já que estudo em uma universidade fora do meu estado. Recebi um convite de um bom amigo para nos revermos. Fui na casa dele a noite, o que era normal, ele sempre ia na minha casa. Esse era um amigo próximo da minha mãe e dos meus irmãos, alguém que eu confiava. Me lembro que bebemos algo alcoólico, depois não me lembro de mais nada. Acordei no outro dia ao lado dele, fiquei assustada e não tinha ideia do que havia acontecido. Quando fui ao banheiro percebi o que realmente havia acontecido, havia embalagens de preservativos espalhadas pelo banheiro, eu sentia dor no meu corpo, no meu ânus e nos pulsos. Queria ir embora, me sentia constrangida.

N

Meu “amigo” deu a entender que havíamos transado e queria me contar detalhes. Pedi que parasse, que estava me sentindo mal com tudo aquilo. Ele me levou até em casa, eu estava me sentindo um lixo mas, o tratei normal.

Senti uma angústia terrível durante todo o dia, chorei bastante, não conseguia entender como aquilo aconteceu. Eu me sentia culpada, uma vagabunda. Foi então que conversando com uma amiga me dei conta de que havia sofrido um estupro. Demorou algum tempo para eu aceitar que havia sido uma vítima. Contei para pessoas muito próximas a mim o que havia acontecido, todas queriam que eu denunciasse. Mas, eu não tive forças, não queria que minha família soubesse. Como a minha mãe me deixaria voltar para a universidade depois de saber que eu havia sido estuprada?! Decidi não denunciar, por medo da reação das pessoas, por dúvida, por não querer acreditar que havia sido estuprada.

Esse rapaz me ligou diversas vezes, ligou para a minha família e eu não atendi, sentia um medo muito grande dele. Ele foi a minha casa quando eu estava sozinha, não atendi a porta. Senti tanto pavor! Foi então que escrevi uma carta ao meu estuprador, não podia deixar que isso passasse em branco para ele. Ele deveria saber que aquilo foi um crime. Aqui está a carta ao meu estuprador:

“Essa vai ser a última vez que te responderei. Eu achei que eu fosse a culpada, me senti um lixo. Achei que eu fosse uma vagabunda. Mas na verdade você que foi um lixo. Eu confiava em você, meu amigo, e você se aproveitou de mim quando eu não tinha condições de tomar uma decisão. Eu sei e você também sabe que eu jamais teria tido nada contigo em sã consciência. O que você fez foi um crime, e você não tem ideia da dor que me causou. Nesses anos todos que te conheço jamais quis algo contigo, não há desculpas para o que você fez. Você se aproveitou de mim. Se acha que eu estou exagerando você pode olhar no código penal, é considerado estupro. Isso mesmo, estupro! Qualquer ato libidinoso com alguém fora do seu juízo mental (e isso se aplica a doentes mentais, pessoas bêbadas e drogadas). Eu não tive nenhuma capacidade de decidir, e isso eu não aceito. Eu sei bem a diferença entre uma noite ruim e um ato que você não teve consciência para decidir. Você deveria ter sido meu amigo, cuidado de mim, mas você foi um porco machista que se aproveitou de uma mulher bêbada. Eu não te denunciei e eu estou pagando pelo crime que você cometeu, você não tem ideia da dor que sinto. Ainda bem que eu não me lembro de nada do que aconteceu. Mas saiba que eu tenho nojo de você e nunca mais quero te ver na minha vida. Você sairá da minha vida e da vida da minha família, e isso é uma ordem! Eu não aceito desculpas e nem explicações. Eu vou te bloquear das redes sociais, você jamais vai me ligar, jamais irá na minha casa e jamais terá contato com minha família.
Eu não estou exagerando. Um homem de verdade jamais teria feito o que você fez. Um amigo de verdade tampouco. Da próxima vez que você quiser ser esperto e se aproveitar de uma mulher sem consciência, se lembre que você tem uma irmã, mãe… Se lembre do quão nojento você é e que essas coisas não tem desculpa. Para mim você não passa de um rato de esgoto dessa sociedade nojenta. Adeus.”

Hoje não estou mais na mesma cidade que o meu estuprador. Espero nunca mais revê-lo na minha vida. Com apoio de amigos estou conseguindo me livrar desse peso. Gostaria que o meu caso pudesse ajudar alguém que está passando pela mesma situação que passei. Como tantos relatos que li e que me deram força para seguir em frente.

Obrigada pela atenção.

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