PIÚ VINO PER LA MAMMA por Vera Vianna

vinho taça

São todas mulheres, apenas mulheres. Que Deus concedeu um Poder. O de parir. De  criar no ventre outra pessoa.  Portanto temos um variado buquê. Tem as  mães guerreiras, as obsessivas, as judias, as dramáticas, as que se vitimizam, as que fazem chantagem, as  indiferentes,  as do coração,  essas de todas as mais lindas  porque  já chegam com o amor pronto e as  monstruosas.  Aquelas que num surto, só posso imaginar isso, abandonam seus filhos recém paridos nas lixeiras, nos lagos, na rua,em qualquer lugar que as livre desse fardo.Essas não vamos incluir na palavra Mãe foi um equivoco  divino.

Vamos ficar com as que merecem e lutam com uma constante dor. Desde da hora do parto, momento de felicidade indescritível até a hora que fecham os olhos. Porque a DOR de ser mãe será sempre uma linha entre o  paraíso e o inferno que explode tantos corações. Um Amor absolutamente especial e tão forte que faz com que se  tornem doces anjos ou felinas  perigosas.Que mesmo sendo magoadas não abdicam do posto. E aí de quem tocar num fio de cabelo  desse rebento .Estarão sempre armadas faca entre os dentes, escopeta na mão. Saia da frente está chegando uma Mãe  e dela não duvide nada.  Defensoras até do indefensável essas mulheres  carregam  no corpo  uma tatuagem que   ganhará vida eterna. Um fruto Do Amor.  Mesmo que esse amor não seja o pai sonhado.  O Útero  é   intransferível. Maridos não são  para sempre a gente bem sabe. Casamento é outra história.

Mãe é escolha para a vida inteira. E são conscientes disso.  Por isso  as solteiras encaram  e recebem seu  filhote como o mais precioso presente.

Poderia hoje fazer uma    homenagem  às mães celebres , as conhecidas mundialmente que a gente aplaude e admira.   Mas vou  ficar especificamente com uma  anônima : a minha .Gosto demais da italiana Chapeleira , maluca  beleza  que me lembra o conto de fadas da Alice, e foi meu  grande encontro.

Não me pariu, me amou e preencheu essa lacuna quando fiquei sem a minha biológica  aos 2 anos.

mae vera vinho

Aos 12 anos ela entrou na minha vida, casando com meu pai  um viúvo com  um casal  de filhos crescidos  e nos deu  uma partícula de seu DNA  para misturar com  o nosso. Achando pouco gerou mais 3 filhos  e assim sua  chegada ficou mais importante pois  formou-se uma família  de verdade.  Sem nenhuma restrição ao trabalho dobrado …  Viramos cinco .

Alegre, sempre com uma piada pronta, era  agregadora e ficava dias na cozinha preparando  o almoço nos domingos  para ter  o motivo certeiro de nos reunir em grandes comilanças e  muitas risadas. Quem ia querer perder um dia desses?Nem os amigos e amigas dos filhos que iam se  tornando parte dessa bagunça  domingueira ou natalina.   Depois as noras e netos. Festeira por natureza  nos  tornamos mais que tudo as melhores amigas. Crescia e minha personalidade tão   controversa  encontrava a dela e nossa  afinidade   virou completa. Era minha confidente e nunca me julgou, apenas me amou e me aceitou. Isso é prêmio  . Cada marido que arrumei ela recebia de braços abertos e colocava logo um apelido, abrindo aqueles braços imensos  e aconchegando num abraço até que  o prazo expirasse . Virou  Sogrona  pelo tamanho de tudo que a envolvia.Nossa maluquice era misturada  entre palavras e total  cumplicidade.

Tinha frases inesquecíveis  que nos desmontava ,   sua marca registrada.

Hoje ao começar esse texto, de repente parei e resolvi ir à feira. Queria andar entre  as mães desconhecidas e  achar uma inspiração. Pois bem, no meio da feira me  cai como um raio uma frase sua: minha filha você precisa ir a um  analista se tratar!! Essa mania de ir todos os dias  á feira não  é normal!

Sorri  sozinha  entre  rúculas , alfaces e   tapiocas.  E entendi. Danada! Foi para cá que você me mandou  para encontrar sua galhofa.Perambulei  com olhos de melancolia   encontrando -a   entre  os  legumes e as flores.  De repente paro para  comprar a única coisa que precisava: mamões papais e resolvo  então perguntar  ao feirante: Me diga uma frase sobre sua mãe. Ele me olhou me  achando esquisita e expliquei  candidamente o motivo. No que ele soltou, sem pensar nem um segundo : Amor da minha vida.
Voltei para casa  feliz com a definição perfeita de um filho que busquei na multidão.  E que sirva de  inspiração para todos os filhos desatentos.
Gostava de vinho essa minha incrível mãe italiana.  E  bebíamos sempre  só eu e ela, pois o restante entre pai e irmãos  eram todos abstêmios.Sua espontaneidade  se libertava  e   nossas gargalhadas  rolavam soltas.  Até o momento em que  eu dizia a frase sinalizadora:Mãe é Mãe. Ela então emendava: Está na hora de parar minha filha, já está ficando ruim.
As vezes era seu , o sinal vermelho: Larga esses  pratos para lá menina! Vamos quebrar tudo, jogamos no lixo e nos livramos deles. Nesse ponto era impedida de entrar na cozinha. Não era de  confiança. Seria capaz.

vera veneza

Sonhamos  juntas um belo sonho. Ir á Itália. Queria rever  a terra de seus antepassados.
Prometi que um dia faríamos isso. E Graças a Deus consegui lhe dar esse presente para desfrutar de sua  contagiante emoção e companhia perfeita  de viagem. Foi  o tour dentre todos que fiz ,o  mais importante de minha vida. Entre Milão, Roma , Nápoles e Veneza  aprontamos muito. No Trastevere bairro da boemia na época numa cantina absolutamente perfeita, ela virou atração . Os garçons traziam vinho e a proporção que  o copo se esvaziava, eles gritavam para a cozinha: piú vino per la mamma! Noite seguia e os cantores que dedilhavam seus acordeões  estacionaram  em  nossa mesa dedicando- nos  as  mais lindas e  clássicas canções do cancioneiro  napolitano : Mamma para ela ,claro, e  Malafemmena  para mim;  cantávamos  juntos o que empolgou o restaurante e virou um coro.  Afinal era um reduto italiano,  não  poderiam perder aquela festa.Um mais animado se aproximou e tirou-a para dançar. Não se fez de rogada. Aquela gorducha era leve como uma pluma e dançava bem demais  entre as mesas daquele restaurante, sendo  aplaudida.Abriu-se o baile… outro veio e me convidou Eu usava um vestido de couro, verde água ,lindo e justo que consegui num rodopio mais ousado rasgar até a altura do quadril ficando de perna de fora e inutilizando-o.

Nessa noite saímos escoltadas   pelos cozinheiros que largaram  seu posto  todos de panelas na mão    batucando com colheres de pau  gritando e cantando até a porta, onde tomamos o táxi  salvador.Saída triunfal de uma noite  de  uma pura, puríssima alegria de viver.

Essa foi minha  Mãe que já se foi.  Não tem dia que não pense nela , me faz muita falta.Mas é uma saudade boa, ela  me  resgatou de um sentimento de orfandade amando como só uma verdadeira Mãe ama .De  herança  me deixou o significado das palavras AMOR , ALEGRIA e    GENEROSIDADE. Gratidão   Helena ,que tem na carta de tarô a  Temperança representada por um anjo.  Gratidão  Helenita , Ita apenas  Mamma Mia.Que veio oculta de outras vidas  e que foi nessa descoberta.

vera irmao montagem

Essa crônica é dedicada a Ela e a todas as Mães que souberam ou sabem   a importância  desse  Amor  dentro de uma relação tão  delicada.E também  as que ainda  se perdem com a dificuldade de achar esse caminho  tão  complexo, cheio de  nuances  guiadas  pela emoção, um enigma que alterna lágrimas com intuição ,     amor com perdão .  O aprendizado  de fazer das tripas coração. Mas tem luz  e poesia como na frase do feirante .  Desfaçam -se dos dramas, das cobranças,   deixem seus filhos voar e fiquem apenas atentas . Quando um voltar para casa com alguma asa quebrada, vai precisar que  você pacientemente consiga   restaurar. Ele não vai achar outro lugar.  Só o colo de Mãe salva.

FELIZ DIAS DAS MÃES !!!

 

Por Vera Vianna

Atriz, Jornalista e Produtora Cultural

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