O TURBILHÃO DE MARÇO por Vera Vianna

11659390_946102208785725_8014640947705376388_n

Nessa vida  efervescente  que venho vivendo há tantos anos essa semana de março  é quase inédita.

Sentimentos  misturados todos de uma intensidade que nem eu aguento.Tento disciplinar, colocar calma nas horas ,razão nos minutos mas esse incontrolável coração sempre vence. Só de uma coisa  tenho certeza: Será inesquecível .Não reclamo, conclamo, ando sozinha pela casa, durmo mal, como pouco ,tudo fica para depois. Não posso perder nem um minuto dessa ansiedade. Da emoção… ou será comoção?  É preciso ordenar e tudo tem muitos detalhes.

Escrevo em pedacinhos de papel as tarefas , espalho pela mesa esqueço na bolsa, saio em disparada no dia tentando lembrar cada coisa, as vezes pequenas mas que farão a diferença nesse drama interior que se derrama.. Anoto tudo diariamente, deixo o  papel em casa perdido, escondido, sei lá onde, já achei um até dentro da  geladeira.Caminhando forço a cabeça a lembrar.Tem almoço com a amiga tem a farmácia no caminho tem a almofada que preciso pegar, tem o irmão que me espera para um café, tem o celular que pifou. Ah é… Entro na loja o rapaz atencioso me aconselha a trocar. A memória está se esgotando. Ok garoto agora não, ela tem que agüentar, não tem grana para isso , trate de limpar e fazer funcionar. Não posso ficar sem ele.

Até minha memória está agüentando, a noite pede um tempo, concedo, ligo a TV. Noticias tantas em avalanche me entram casa a dentro, desorientam , ouço atentamente preciso estar informada, alarmada, atenta, motivada, dessa vez trata-se do meu país.  Está bem virei ativista virtual, o  watsapp não para não consigo responder tudo, todos os meios são usados estamos quase que em guerra, me sinto menina de novo, cheia de gás. É o jeito. Verás que um filho teu não foge  à luta.

Tudo bem, esse inconformismo já conheço, alma bélica e não tem santo que consiga  detê-la .

E aqui dentro do coração que se mistura com a razão,  a minha guerra particular, que se escolheu. Pasma ,  rodopiei pelas ruas  pensando como será. Vai ser bom, vai ser ótimo, surpreendente e é nessa parte aí que sinto o coração disparar. Tudo junto e misturado.

O celular toca, o nome deixa claro a voz fica rouca a conversa rola entre uma tentativa e outra de respirar.  Do outro lado um quase desespero, um medo que vence o medo, disfarço com sorrisos e logo eu aqui tão aflita me cabe o papel de acalmar. Calma peço, cada coisa vai começando a ir para seu lugar. Sinto que tranqüilizo e a contagem regressiva aperta. A cabeça gira ao desligar.

E a almofada ? Ficou.  Esqueci meu Deus  e a flor?   Não, é só para ser comprada na véspera, está calor pode murchar.

A faxineira vem mesmo quando? E a manicure?Olho o celular procuro a mensagem anoto . Okay tudo coordenado.

-Você tem camiseta do Brasil?  Liga a  amiga perguntando. -Vou na rua da Alfândega posso comprar.

– Tô na rua! Tenho sim compra não. Todos lá, sim , sim as 10 horas.

A pátria entra de repente naquele assunto que foi ignorado por  qualquer reflexão, desligo.

Quero chegar em casa, tomar um banho, relaxar porque preciso desvendar o que aquela voz ansiosa  me disse.

Felicidade que pega a gente desprevenida, deixa assim  perturbada.Está sufocando. Exagerada, muito exagerada. Pra que isso??

O tem tiver que ser será. E essa maluquice toda, não vai adiantar. Foi isso que disse para mim mesma. Adiantou meia hora. O turbilhão estava instalado. Nada a fazer, apenas vivenciar.

Dia seguinte, de verde  amarelo da cabeça  aos pés, bandeira em punho, perdida na multidão me vi gritando palavras de ordem e de mão no peito cantando: Ouviram do Ipiranga às margens  plácidas, de um povo  heróico um  brado retumbante. Mas era a praia de Copacabana, via o mar batendo e quase sem voz continuava, entre fotos e encontros com um bando de amigos enlouquecidos. Bonito espetáculo!  Povo na rua vibração intensa.

11133754_900739046655375_2217680587727636094_n.jpg bndeira

Já estava ficando arrependida de ter entrado nisso, já havia feito tudo no passado, mas a emoção era latente.O sol saiu e   senti saudade do meu chapéu. Continuei a caminhada e depois fui me dispersando junto com duas amigas que também tinham hora para sair.

No caminho de volta tinha a feira. Precisava comprar eucalipto, girassóis, arruda, mangas. Na feira os feirantes discutiam com os clientes, tinha contra, tinha a favor, uma confusão, que sabiamente resolvi ignorar.  Missão cumprida. Agora entrar em casa e acabar as missões pendentes. Tempo, tempo se esgotando. Arranquei a roupa de  patriota, tomei outro banho, liguei a TV para ver a repercussão ,os amigos ligavam, uns desencontrados me caçavam, e desisti. Liguei o face book, postei as fotos que me mandavam comentei, e sai.

Amanhã seria outro dia da maior importância, precisava focar agora no dia seguinte. Trabalho.

Me joguei no sofá, coloquei uma música salvadora, fechei os olhos e relaxei por uma  meia hora.  Vai ficar  com olheiras pensava,  pega leve, não vai ter creme que  dê jeito.

Dormi finalmente vencida pela  exaustão.

Despertei com o assovio do WhatsApp….  lá estava a mensagem esperada:

Um coração vermelho que pulsava…. fiquei olhando aquilo por um bom tempo, nada mais a dizer. Era só esperar.   Estava perto e tão longe.Lembrei de Lara M. um alter ego que inventei para um conto meu. Premonitório  pensei, mas na verdade o personagem era outro.

Amores mal resolvidos, um dia cobram  o  acerto.E se o coração bater, sinalizar, fuja não.

Esqueça as reticências e encare. Porque senão vira desassossego.

Não há saudade mais dolorosa do que as coisas que nunca foram .(Fernando Pessoa)

 

Por Vera Vianna

Atriz, Jornalista e Produtora Cultural

siga @atrizveravianna

vera blog certa 150x150 Não me Retiro...Eu sou Presente...O Retiro dos Artistas é Nosso ...

 

 

 

 

 

http://www.veravianna.com.br/

4 comments

  1. …que combinação formidável de encontros, desencontros, dúvidas , certezas se dá na vida para ser tão incomum? Destino, talento, sensibilidade, energia, determinação? Seja lá qual a resposta esse turbilhão acontece com você querida. E com que coragem e honestidade para expor. Comece logo sua autobiografia, suas memórias pois suas crônicas são ótimas ,e você é uma mulher especial como poucas. Parabéns amiga.

  2. Madja, seus comentários são taão lindos, que sempre me emcionam e saiba, que sua pena escreve com o coração… é tão bonito ler coisas tão bem escritas e cheias de amor e torcida Obrigada amiga!! estou sim trabalhando no livro, virou desafio e vcs me incentivam tanto que tenho que cumpri.r Senão cadê essa coragem que vc. me atribue??? Simbora!bjsss e obrigada sempre.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *