O Dia Que Soltaram Clara Crocodilo Num Teatro em João Pessoa

clara crocodilo

Para Tota Arcella, em memória
e Elder Pordeus

– Clara Crocodilo fugiu, Clara Crocodilo escapuliu!!!
Essa ‘notícia’ estremeceu o meu mundo da música nos anos 80.
É que quando Clara Crocodilo fugiu, deixou a porta do hospício aberta.
Com ela escaparam loucos lindos e maravilhosos, que a gente chamava carinhosamente de ‘a galera paulistana’. Fossem paulistanos ou não. Podiam ser de Cuiabá, de Londrina, do interior de São Paulo ou da Vila Madalena.
Era uma lufada de frescor e originalidade no universo da MPB.
Arrigo Barnabé, Tetê Espíndola,Vânia Bastos, Cida Moreira, Itamar Assunção, Eliete Negreiros, Ná Ozzetti, Zélia Cristina (que depois virou Duncan), Suzana Sales, Língua de Trapo, Premeditando o Breque, Passoca, Carlos Rennó… Músicos, cantores, compositores que pareciam fazer parte de um mesmo grupo, reinventando com humor e teatralidade o mundo maravilhoso da música.
Era tão paulistano!
Aqui, essa onda nos foi trazida pelo Projeto Pixinguinha, quando Arrigo veio com o inusitado trabalho Clara Crocodilo. O cara começava o show datilografando Augusto dos Anjos e encheu o palco com uma música esquisita… Ninguém, ou pelo menos eu, sabia o que era música atonal, dodecafônica. Um tal de Schoenberg. Tinha referências ao mundo dos quadrinhos e a voz de cristal, linda e afinadíssima de Vânia Bastos. Um impacto!!!
Ficamos loucos para descobrir mais desse universo. Todos queríamos conhecer aquela galera que bebia da fonte de poetas incríveis, do cinema, do universo pop, do jazz…
Era uma delícia viajar prá São Paulo para ver os shows cheios de graça desses artistas, as peças de teatro (lembro de uma peça que vi no Teatro do Bixiga, A Garota do Gângster, onde Arrigo era o pianista de um Bar e Rosa Maria – depois Rosa Maria Colin – fazia a cantora cega, no melhor estilo das cantoras americanas negras), tomar uns drinks no Spazzio Pirandelo, arriscando até encontrar uma dessas figuras por lá, comprar seus discos, em lojinhas alternativas, claro, por que eles não eram ‘mainstream’.
A gente voltava com esses LPs, juntava a turma na sala da minha casa, com muita cerveja, prá ouvir Eliete cantando …fico louco faço cara de mau, falo o que me vem na cabeça…e outras coisas do Itamar.
Vânia reinventando My Heart Belongs to Daddy (do filme Adorável Pecadora), numa versão prá lá de safadinha do Rennó (que tem outras versões deliciosas de clássicos americanos, além de suas próprias composições), chamada Eu Sou é do Papai.
Cida, que fez um LP roxo e Summertime voltou a ser ouvida.
Ná cantando Lá Vie En Rose e, suave e brejeira, Sonora Garoa, de Passoca, que Elis estava para gravar antes de morrer.
A gente se acabava de rir com o besteirol do Língua de Trapo, cujo LP, na última faixa, sugeria que se girasse o prato do toca discos ao contrário, para se ouvir ‘você está estragando a sua vitrola!’.
Tetê já tinha mais estrada. Nas rádios daqui tocava a linda Vida Cigana. Mas Pássaros na Garganta retirava Sertaneja do fundo do baú, prá ser ouvida de um jeito que nunca se ouviu antes. Assim como Suzana Salles ressuscitava um monstro chamado Carimbamba, de um lago mal assombrado, em Amanhã Eu Vou.
Arrigo voltou ao mundo dos quadrinhos com o incrível Tubarões Voadores.
Cida cantou em um francês ‘non sense’ Como Diria Satie. Depois um disco todinho dedicado a Kurt Weill e Brecht.
Tetê explodiu num festival. Tava escrito nas estrelas.
Eram tantas coisas boas!
O universo da música é infinito. Naquela época muita coisa acontecia no cenário musical brasileiro (o ‘boom’ do rock nacional, por exemplo. Mas isso é prá outro papo). E essa galera era uma coisa muito especial. Era coisa fina. Sofisticada, despretenciosa e divertida.
Era não, é.
Tirando o Itamar, que já se foi, e a turma do Língua, que eu não sei por onde anda, todos continuam fazendo trabalhos incríveis.
Vânia tem discos lindos, onde interpreta com elegância e graça Caetano e Tom Jobim. Tetê canta com a irmã, Alzira.
Cida fez um filme aqui na Paraíba, e a cidade de Soledade acabou dando nome ao novo álbum. Veja o seu vídeo clip de O Pulso, prá entender do que essa dama indigna é capaz.
Zélia não para. Inquieta que só!
Antes era preciso ir a São Paulo para catar o trabalho desse povo, que lamentavelmente, não é ouvido nas programações de rádio e tv.
Agora, tem que procurar na net.
Está todo mundo muito bem, fazendo muita coisa boa, com muito …sabor de venenooo, sabor de venenoooo…

Em tempo: essa galera ficou conhecida como Vanguarda Paulistana

P.S. É possível que a memória tenha me traído em alguma coisa. Misturado tintas, errado parcerias. Mas foi de memória que tive vontade de escrever.

Trilha Sonora:

Clara Crocodilo – Arrigo Barnabé
Fico Louco – Itamar Assunção
Eu Sou é do Papai – Cole Porter, versão Carlos Rennó
Summertime – George Gershwin
Lá Vie en Rose – Edith Piaf
Sonora Garoa – Passoca
Concheta – Lingua de Trapo
Vida Cigana – Geraldo e Tetê Espíndola
Sertaneja – René Bittencourt
Amanhã Eu Vou – Beduíno e Luiz Gonzaga
Tubarões Voadores – Arrigo Barnabé
Como Diria Satie – Nancy Alves
Escrito nas Estrelas – Arnaldo Black e Carlos Rennó
O Pulso – Arnaldo Antunes
Sabor de Veneno – Arrigo Barnabe

Por  Nelson Barros

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