O ANO DA MARMOTA por Vera Vianna

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Segundo a tradição deve-se observar a toca de uma marmota. Se o tempo estiver nublado e ela sair significará que o inverno terminará cedo. Ao contrário se o sol estiver brilhando e ela se assustar com sua sombra voltando para sua toca, então o inverno durará mais seis meses.   É uma festa tradicional nos EUA e Canadá, que já virou filme: O Feitiço do Tempo com Bill Murray. Na cidade de Punxsutaweney a 120 k.  a  nordeste de Pittsburg  comemora-se essa tradição dia 2 de fevereiro. É o Groundhog Day. A história se baseia no meteorologista Phill que acordava todos os dias no mesmo dia. Preso no tempo. A tentativa é adivinhar quando o inverno vai acabar baseando-se na intuição do animal.
Pois bem é essa sensação que tenho nesse 2016. Ficamos atados rodopiando em torno dos mesmos assuntos… A desarvorada politica brasileira, e o andar para trás, num retrocesso imenso, sem nos deixar horizontes.
Estamos acordando todos os dias no mesmo dia? Prende e solta, vai ser preso ou não vai? Vão soltar ou não? Continuamos a amanhecer naquele dia onde finalmente o impeachment do acordão se deu.
De lá para cá existe somente a repetição dos mesmos fatos, dos mesmos canalhas no poder, das mesmas descobertas do saque que sofreu o país, e das mesmas frases: Eu não sabia de nada. A palavra Lava a Jato e as cifras astronômicas que devastaram a Nação. Nossa alegria esperançosa dura pouco e voltamos ao dia anterior. Estou tendo dificuldade com o calendário… Perco-me, achando que não dormi. Esse ano existiu mesmo? Só temos certeza pelas punhaladas que tomamos no corpo distraído e na estupefação geral. Estamos presos, na Corrupção que alastra-se de ponta a ponta no país naufragado. E na Vergonha que nos humilha pelo mundo.
Mas foi aí também que descobrimos a capacidade de reagir. Brasil mostra a tua cara!  Unidos fomos para as ruas Foi o ano que mais gritamos, nos esgoelamos, protestamos e começamos a despertar esperando quem seria o  corrupto que iria para a cadeia naquela manhã. Lutávamos por uma Nação de volta. Era tanto exagero na República democrática, que começamos a ficar indignados de verdade. O espirito patriótico começou a falar mais alto.  Procurando resgatar um pouco de decência.   E virou a guerra de um homem só, que foi acolhido por nós um povo desesperado, espoliado. Passamos então a rezar fervorosamente por um juiz que pegou capa e espada e fundou outra república: a de Curitiba.

downloadConseguíamos sorrisos e pedaços de orgulho, quando ele tenaz resolveu ser capitão de um time de bons brasileiros dispostos a colocar os vendilhões do templo no seu devido lugar.  A cela de uma prisão. Mas o poder do dinheiro saqueado era muito forte e nossa esperança se desarmava, urdida na escuridão de nossas noites mal dormidas. Fomos ficando sem nenhuma luz para iluminar nosso túnel. Pelo contrário, assistíamos literalmente a cidade desabar aos nossos pés e muita lama que escorria pelo Brasil a fora.  Com terríveis descobertas da qualidade dos seres que nos governavam, nos representavam. Impávidos de covardia. Nos Crimes sem punição, arrogância dos poderosos, a certeza que iriam continuar devastando uma pátria que já fora saqueada, roubada de um povo já em trapos. Dia a dia, viemos sentindo a ruína, a falência de nossos sonhos, nossa incapacidade de acreditar no já famoso Tudo vai dar Certo. Dava não. Todo dia sem parar numa velocidade alucinante, nos envergonhávamos mais, paralisados. Incrédulos, sem palavras. E abriu-se a temporada dos palavrões.
Estamos completando 365 de desespero. Nada tinha sentido, aberrações e patifarias sem limites nos acordavam, quando a base de rivrotil ou lexotan se cochilava.
Era preciso muita garra, muita vontade de sobreviver, muito murro em ponta de faca. Chocou. Até os que fanaticamente continuavam a defender o indefensável. Acabaram alguns jogando a toalha.
Foi quando   veio à tona as desavenças pessoais, sinalizando que estávamos partidos. Um povo dividido entre o bem e o mal, entre a loucura e a incredulidade, entre o bom senso e a desordem mental.  A bipolaridade virou sintoma e o alarde nos fez ir murchando, angustiando, perdendo o controle. De nós mesmo, de nossas vidas, de nossos anseios.
Nessa luta inglória, tivemos vitórias pontuais. Crise das mais sérias nos regeu esse 2016. Resiliência virou mantra.   A adrenalina fervia no sangue latino. Junte-se os acontecimentos do mundo que também não deram trégua e nos atingia profundamente. Que ano é esse? É a pergunta recorrente.  Uma inversão de valores e uma confusão de sentimentos tomou conta do chamado ser humano.  Assim, acabamos nós contra eles. Eles quem? Guerra maldita, mentiras incessantes, ladrões covardes, que nos pilhavam na calada da noite, dentro de nosso travesseiro. Loucura perde. Ficamos loucos, regidos por insanos e imorais da melhor e mais fina qualidade.
A delicadeza ficou escassa, o Amor perdeu assento. Flutua ainda, entre os mais obstinados.
O ano do retrocesso, dos absurdos, indignidade plena. Vergonha de ser brasileiro virou sentimento coletivo. Preconceitos vieram à tona.  Nunca estiveram mais em moda.
Tentamos formar bandos, um se segurando no outro, mas a turma do foda-se sempre ganha. Somos poucos, mas ainda bem que firmes.   Todos à beira de um ataque de nervos. Sem trabalho, sem dinheiro sem opção. E então onde fica a alegria?

51O pior é que estamos longe de alcançar algum resultado positivo. Tem muito chão ainda, nesse 2017 que se aproxima, nada amigável.  Isolados, cada um em sua casa, ficamos falando com os amigos pela rede social.  Cada um vai escolhendo sua defesa.  Na tentativa exasperada de não fenecer, nem desistir. Hay que tener cujones!
Gostaria de fazer uma crônica bem amena e cheia de felicidade para virar esse ano. Mas sinceramente, tornou-se missão impossível. Nesse mesmo dezembro assistimos o Apocalipse de Aleppo… Dizimada, esfarrapada, perdida em incessantes bombardeios. A isso chamamos Gente?  Mesmo apelando para os poetas, os loucos, desencanados, os que sangram diariamente donos de um coração e um olhar privilegiado, para a arte que alimenta momentos tão difíceis de engolir nos intervalos do que excede a alma exausta, mesmo assim não ganhamos imunidade.
Foi e continua sendo um ano que riscaram  do calendário e viramos reféns. Em casa trancados, só nos falta a tornozeleira eletrônica, na vigília da marmota.

508125186Faltando um dia para essa virada que sempre é a da Esperança, quero deixar aos sobreviventes minha admiração. Aos que resistem minha solidariedade, aos que desistiram meu lamento, aos que ainda se recusam a enxergar, minha perplexidade e aos que continuam acreditando meu aplauso.
Aos que decidiram guardar os ódios, a insanidade o sofrimento que nos traz esse momento e a necessidade de respirar ar puro, aviso que vou me permitir não ser contaminada nos minutos derradeiros.  E me congratulo com os que sentirem essa mesma vontade; desejo que consigam a felicidade sonegada, a alegria sequestrada, plena, e sem culpa.
Manual de sobrevivência, que aprendi com aquela menina Polyana que fazia o jogo do contente, dos livros da infância. Aos que conseguiram trancar dentro de si o Amor, a Delicadeza, o olhar de Generosidade, minha gratidão. Precisamos ficar atentos e nos reconhecer. De verdade, somos poucos.
Nos canos das espingardas dos enfurecidos, vamos tentar colocar uma flor, que desarma qualquer intenção. Em alguma praia vamos desfraldar uma bandeira sem cor, branca, imaculada, quem sabe isso consegue apaziguar nem que seja por um dia tanto ódio que impregna o ar desse verão que se aproxima?

Não me convidaram para essa festa pobre… A piscina está cheia de ratos…  Grande pátria desimportante em nenhum instante eu vou te trair…

champagne-cork-101014-02Abra seu champanhe, seu vinho, sua cerveja, o que conseguir que seu dinheiro compre e grite palavras positivas, se jogue nos braços dos amigos, beije com vontade de beijar, aperte até seu coração acelerar, dê refúgio e se refugie. A hora é essa. Aproveite que o desamor estará distraído, e o ódio envergonhado. Não vou permitir que me roubem o vestido branco, meus amuletos da sorte ,as flores na mão, os pés molhados pelo mar, a mistura tão linda que sempre foi  essa comemoração  entorpecida   pelos sonhos de um Novo tempo, a energia misturada em varias raças e línguas Por um dia, basta um dia, agradeça e perdoe. Está Vivo e essa será sempre a grande droga nessa festa.

dsc_0079FELIZ ANO NOVO!
*Cazuza

Por Vera Vianna

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vera blog certa 150x150 Não me Retiro...Eu sou Presente...O Retiro dos Artistas é Nosso ...

 

 

 

 

Quando trabalhava no Jornal do Brasil ao entrevistar Nelson Rodrigues foi convidada para protagonizar o filme ENGRAÇADINHA, de seu livro ASFALTO SELVAGEM, assim, ingressando na carreira artística. Hoje atriz , jornalista, blogueira e escritora.

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