JE SUIS OTÁVIO – Por Oswaldo Mendes

aparecida charge

Agosto de 1963: de como o Brasil quase teve uma tragédia parecida com a do Charlie Hebdo.

Campeonato Paulista de futebol, mais um confronto entre Santos e Corinthians. Seria um jogo comum não fosse o tabu que o time da Vila mantinha desde 1954, de não perder para o timão.

Talvez, como estratégia de marketing para atrair torcedores, ou por pura crença religiosa, os dois times foram à Aparecida do Norte, em ônibus separados, pedir graça à padroeira.

O fato deu origem a uma charge do Otávio, desenhista carioca (radicado na capital paulista desde 1953), publicada no jornal Última Hora, de Samuel Wainer. O desenho retratava o mosqueteiro corintiano de um lado, o peixeiro santista do outro e no meio a Nossa Senhora Aparecida, com expressão de desconfiança.

O governador de São Paulo à época, Adhemar de Barros, ferrenho adversário político de Samuel, acalentava o sonho de se tornar presidente do país. Já o jornal Última Hora pegava forte no pé do governador, criticando-o quase diariamente em textos e cartuns.

O país vivia uma grande efervescência política, os militares andavam agitados, tanto é que em março do ano seguinte a ditadura se instaurou por aqui.

A charge caiu dos céus para o Adhemar se vingar de Samuel. Seus contatos em Aparecida mobilizaram a igreja e padres da rádio local começaram a incitar a população contra o que entenderam ser um sacrilégio: o chargista havia colocado a cara do Pelé no lugar do rosto da santa.

A charge foi publicada no dia 27 de agosto.

No fim da daquele dia, o repórter da Última Hora, Ferreira Neto, ligou para a redação e avisou que uma caravana de ônibus lotados com a população de Aparecida tinha partido em direção à redação exigindo que a cabeça de Otávio fosse colocada numa bandeja.

O editor Miranda Jordão pediu reforço policial para a redação, que ficava no Vale do Anhangabaú, embaixo do Viaduto Santa Efigênia. Os ônibus estacionaram em frente ao jornal e uma multidão desceu carregando a tal bandeja com um papel pendurado onde se lia: “Aqui colocaremos a cabeça do Otávio”.

Como não existia internet naqueles tempos, ninguém sabia ao certo quem era o chargista. Ele ficou ali, no meio da multidão, anônimo, negociando a retomada da paz.

Depois de muito mimimi, sem violência, só exaltação, o comboio voltou para a santa cidade.
Eu tinha nove anos em 1963 e me lembro do fusquinha preto e branco da PM parado na porta de casa durante toda a noite, porque a turba ameaçou também jogar uma bomba na moradia do sacrílego desenhista.

papa

Foto:Da esquerda pra direita: Samuel Wainer, o cardeal Carlos Carmelo, Otávio e Miranda Jordão.

O cardeal Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta aceitou receber Samuel Wainer (que veio correndo do Rio apagar o incêndio), mais o editor da UH em São Paulo, Miranda Jordão e também o Otávio, meu pai, que tinha sido excomungado pela igreja.

Só sei que ele foi demitido meses depois, antes da tomada do país pelos militares, e esse fato foi marcante em sua carreira de chargista.

Sempre, até o fim da vida, meu pai continuou afirmando que não fez a santa com a cara do Pelé, o que se confirma quando vemos as caricaturas que ele fez do craque, completamente diferentes do desenho em questão.

Otávio morreu em 1995.

Por Oswaldo Mendes

osvaldo

 

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