DÉCADA DE ARROMBA – Crônica para Wanderléia por Vera Vianna

Tantos anos e tantas travessias. E eis que numa tarde de domingo vou ao teatro assistir Década de Arromba, um documentário musical sobre os anos 60. E me transtorno. É uma viagem pela revolução cultural que teve início nessa década e da qual fiz parte. Entrei sem maiores expectativas, desarmada, curiosa para ver um espetáculo que vem sendo aclamado. E principalmente rever Wanderléa, a menina que junto com Roberto e Erasmo Carlos virou símbolo do movimento Jovem Guarda e numa explosão abalou o país, falando a língua dos jovens, ditou moda e  novo comportamento, trouxe uma música que contava a historia romântica da juventude que pedia mais leveza e liberdade. Tínhamos sido próximas por algum tempo quando, Luís Sergio Person, um diretor de cinema visionário apostando que aquilo tudo que via nascer era importante, que marcaria uma transformação e precisava ser documentado me convidou para fazer parte do filme. Rodamos muitas cenas, porém infelizmente o filme acabou não sendo concluído. Mas eles permaneceram dominando a cena, e viraram o maior sucesso musical, fizeram a diferença e colocaram muita gente para dançar o iê iê iê , inventado por eles.  As meninas e meninos assumiam ousados figurinos –  mini saias, botas , muitos cordões, pulseiras e anéis em todos os dedos. Os Beatles sacudiam o mundo e a Jovem Guarda sacudia o Brasil.
Aos poucos vou ficando inquieta na cadeira, percebendo que era muito mais que o show esperado. Um dos melhores musicais que já tinha visto, ultimamente. Embarcava pouco a pouco no túnel do tempo e a emoção começou a tomar conta. Eu fui testemunha de cada fato.  Acompanhei cada manchete daquela que era mostrada no telão, enquanto a música soava no palco, e um elenco primoroso e afinado, cantava e representava. Entre eles Jade Salim, a bela filha de Wanderléa.Naquele domingo reencontrei Fellini, Mastroianni ,Glauber Rocha, Jânio Quadros, Ary Barroso, Carmem Miranda, o Festival da Canção, a Chegada do homem á lua, Cauby Peixoto, Edith Piaf, Elvis Presley,Gil, Caetano, Maysa, Tom, Vinicius, Vandré e claro os Beatles e muitos mais. Dez anos que desfilavam bem ali na minha frente, lindas homenagens e manchetes inesquecíveis fruto de uma fantástica pesquisa.  Um divertido e emocionante passeio musical. Que mexe com nossos sentidos, traz sentimentos arquivados, nos faz cantar, querer dançar, e até chorar. Lágrimas boas de intensa saudade.  Passeiam ali, durante 3 horas ricos personagens, que foram o divisor, a vanguarda que surgia. Marcando com muita música, poesia, cinema, teatro, uma nova cultura. Até o Golpe de 64, que deixou então cicatrizes de ferro e fogo. Dando lugar às canções de protesto.     Mas o amor carregava ainda sua inocência, seu romantismo, e fazia com que nós jovens sonhadores pretendendo mudar o mundo, não perdêssemos a ternura. Nem a esperança. O combate usou  armas poéticas. Desde 1922 já havia sido inaugurado o rádio e em seguida a televisão, que popularizou todas as expressões e deu força aquela gente sedenta de expressar seus talentos em todas as suas formas. E eis que… No final do primeiro ato a Ternurinha como ficou conhecida, aparece.  Num vestido cor de rosa clarinho, bordado, lindíssima invade o palco e nossos corações que ela já havia sequestrado tantos anos atrás.  A plateia veio abaixo, aquelas senhoras e senhores esqueceram a idade, embarcaram, cantavam, aplaudiam, a paixão acordava. Que bela aparição! Foi então que chorei pela primeira vez. A menina que conheci e não via há 50 anos, estava ali plena e radiante.
Nada se perdera percebi, estava ali guardado cada momento vivido. E todos ali presentes me acompanhavam remexendo em suas memórias. Naquelas faces marcadas, nos cabelos prateados, os olhos brilhavam embevecidos. Quantas emoções para um domingo qualquer de 2017.
Faz-se o suspense e o intervalo nos deixa na ansiedade do quero mais.   Quando ela volta, desfia seu repertório, com o mesmo carisma, sexy e linda. Wandeca domina a cena, Wandeca troca de roupa, (palmas para os figurinos de Bruno Perlatto) ela dança e canta seus sucessos, com o coro dos presentes que sabe todas as letras. Ninguém esqueceu nada.
Entramos na festa.
Já no final ela surpreende adentrando pela plateia, fala com as mulheres, abraça, renova a esperança dos homens.  No rosto o brilho da felicidade ,o sorriso terno, a alegria de estar ali, revivendo sua própria história, cercada de cúmplices.
O  amor está no ar. O musical se compõe de 20 cenários, 300 figurinos, 24 jovens atores e 20 músicos. Com o excelente vídeo grafismo de Thiago Stauffer, Frederico Reder assina a direção e direção de produção. Dramaturgia e pesquisa de Marcos Nauer.
Um time jovem, que faz esse belo resgate.
O grande final é a apoteose. Todos em pé, explosão total, frenéticos aplausos. Wanderléa está no seu melhor momento. O ícone virou Diva.
Uma festa de arromba. Que completa 50 anos.
Wanderléa teve momentos bem difíceis em sua vida pessoal.   Chorei por ela, rezei por ela. Era um nome sempre presente na minha memória afetiva. Era doce, alegre, de bem com a vida. Focada, tirou todas as pedras de seu caminho e decolou.
E foi aí nesse último momento que veio a minha Prova de Fogo. Fui conduzida ao camarim da estrela pela delicada, carinhosa e gentil Joelma Di Paula que trabalha na produção e foi quem tornou esse happy-end possível.  Quando a porta se abriu um sorriso iluminado me acertou, tinha alegria no ar, e plena de delicadeza repetia: Como iria lhe esquecer? Você está igualzinha!
Morri ali, num abraço imenso que nos uniu com lágrimas teimando em descer. Era muito tempo, uma vida, e parecia que tinha sido ontem. Toda a ternura que eu guardei para te dar… e os seus cabelos… Pois é nesse momento os cabelos dela escondiam meu rosto, que queria disfarçar a emoção desse reencontro também, histórico.
Começamos a falar atabalhoadamente, querendo colocar em dia o que vivemos à distância, naqueles poucos minutos. Relembramos coisas, contei-lhe que agora estava com mania de escrever, e que essa noite iria virar crônica. Ficou surpresa, ficou contente, quis saber mais, me pediu para voltar, me segredou quanto tempo ainda iriam ficar e eu lhe prometi que voltaria. Até porque fazer essa viagem é um presente para uma cansada alma.
Sai do teatro hipnotizada carregando a luz de Wanderléa e gritei já na porta: Vai para o livro! Esse encontro vai ser capitulo do meu livro.
Recomendo a todos, é imperdível. Aos jovens aconselho que se misturem nessa plateia, para saber como era amar e viver naquela época, e ter uma aula de história. A historia de suas mães e avós.  Experimentar a ternura e a delicadeza perdidas.
É uma fiel retomada impregnada de beleza, de talentos, de acertos. Parabéns a todo o elenco, Parabéns pela iniciativa de num momento como esse que estamos vivendo, onde o ódio se alastra, nos oferecer esse oásis, essa trégua, essa levada para o coração. Sigam todos para o Teatro NET RIO! Não importa sua idade.  Lá , quando a luz apagar e as primeiras canções começarem a invadir aquela sala, teremos todos a mesma idade. A juventude de volta.
Cheguei à minha casa com uma vontade louca de  escrever sobre o espetáculo, mas na verdade, essa crônica é toda inspirada em Wanderléa, sua vitalidade, seu brilho que o tempo não levou. Corajosa como sempre foi, ela domina aquele palco, fazendo com que a gente acredite outra vez que ser feliz é possível, que envelhecemos sim, mas os sonhos têm um lugar seguro. Jogada na cama, olhei para o teto e imitei o gesto que ela sempre fez…  Palma da mão estendida… Por Favor, pare agora!  Congele Senhor Juiz.

Hoje vou dormir com 18 anos.

Por Vera Vianna

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vera blog certa 150x150 Não me Retiro...Eu sou Presente...O Retiro dos Artistas é Nosso ...

 

 

 

 

 

Quando trabalhava no Jornal do Brasil ao entrevistar Nelson Rodrigues foi convidada para protagonizar o filme ENGRAÇADINHA, de seu livro ASFALTO SELVAGEM, assim, ingressando na carreira artística. Hoje atriz , jornalista, blogueira e escritora.

 

3 comments

  1. Joelma Di Paula

    Que lindo relato Vera!
    Quando te conduzi ao Camarim da Wanderléa nem imaginei quanta história voce guardava com ela.
    Volte sempre!
    Beijos!
    Joelma Di Paula.

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