CAMINHADA CARIOCA…por Vera Vianna

coqueiros

O  azul sempre me  atrapalha.  Um domingo de pleno sol não me deixa ficar quieta em casa. Tenho que largar tudo e sair, certa de que o dia foi um presente e não posso recusar. Um  domingo   que é o dia mais chato em qualquer lugar do mundo, porque já amanhece com a nostalgia estampada, é perfeito para  escapar e procurar os  motivos de vencer   mais esse.

Vou  então para   a  Lagoa ou Orla. Praia de Copacabana me recebe, com festa de luz e cor. Com pessoas em profusão, caminhando em pares  em grupos ,sozinhas,  bicicletas, patins ou seja lá o que  inventaram mas estão todos ali, marcando a presença contra o tédio dominical.

E adoro dar esses mergulhos na observação .  Após uns quinze minutos, já estou fora desse lugar. A cabeça viajante, voa em todos os detalhes que vou encontrando no caminho.   Quanto mais   liberdade  mais me  atiro  nas alterações de rota .

Todos os camelôs estão ali, com suas criações, um comercio que se intensifica   e põe cor nas calçadas.

São cangas,  bijuterias de contas , de penas , de pedras, de miçangas. Bonitas idéias, paro para ver todas. Tem quadros com seus pintores ali, na esperança de vender algum. Tem que separar o joio do trigo, de repente a gente encontra coisas boas, que faz com que se pare, para apreciar. Sempre me emociono com essas pessoas que não se deixam abater e expressam sua arte do jeito que podem. Fiquei alguns minutos olhando alguns, bem interessantes.  Tinha ao meu lado uma moça, toda tatuada, morena, bonita demais, de sorriso iluminado,  encantada   gostando dos mesmos quadros e como sou metida  puxei conversa, trocamos idéias e logo saquei que era ela também uma   artista plástica,  que me confessa: Sou, mas estou numa fase  pouco criativa. Ao me despedir disse-lhe então: isso passa, a gente  vem para a rua justamente para encontrar inspiração.

O escultor de castelos, é um artista.  Bato palmas  para as esculturas  com minuciosos  detalhes  que pedem  muita paciência. Penso nos dias de chuva, que traduzem bem então a expressão:castelos de areia.

Seguindo meu caminho encontro  meias que colocadas no braço ou perna   viram tatuagens,  mais   criativo impossível , gênios anônimos inventam .  Fiquei tentada a comprar, desisti,   continuei  . Resisti até aos chapéus que passam por mim em pirâmides e me deixam perturbada. É quase doença. Passando pelos quiosques ouve-se música, nem sempre de boa qualidade, mas é uma trilha sonora para o passeio. Vejo cantores, quase negros, quase  brancos,  cafuzos, rastafáris, com seu violão embalando  o oceano  bem atrás.   Deslumbre.

homem chapeu

Olho a obra ainda inacabada do MIS (Museu  Imagem e do Som) e percebo que é um belo projeto já em finalização.  Lá em cima os apartamentos  de cobertura  que possuem até palmeiras e coqueiros plantados   que  ficam  ao sabor do vento  e sigo  hipnotizada  olhando o balanço. A vista de 180 graus dá inveja a  qualquer um. Contrastes . Aqui  a terra    e lá o céu , onde vivem e  não conseguem , penso eu, nem se extasiar com tanta beleza. Todos os dias a mesma paisagem…

Os massagistas que me deixam  com vontade de parar e deitar em suas camas   montadas  e ficar ali sendo  amassada ouvindo o barulho das ondas. Quando começou essa moda em Ipanema, fui uma das primeiras  aderir. Para espanto e sorrisos  disfarçados de quem achava mico.Jogava areia  no preconceito e me entregava  as mãos de um massagista que ficava bem em frente  ao Hotel  Caesar ‘s Park ( Ipanema ) ganhando meu dia . É muito bom  ; depois lógico virou moda agora temos em todas as praias,   o preconceito desapareceu , os turistas adoram  , os locais perderam a vergonha .

Depois quando quero descansar, sento em um quiosque que não tenha aquele horrível e enjoativo cheiro de peixe e camarão frito  e me entrego a bisbilhotice da alma. Gosto muito disso. Em aeroporto  , um dos lugares que  me fascina  faço o mesmo.  Para cada pessoa, sentada ou puxando uma mala, imagino uma história.  Aqui   tenho do lado  esquerdo  a visão imponente do Pão de Açúcar e do lado direito a o Forte de Copacabana, um lugar especial, pela   visão que nos oferece , uma visita imperdível.  Tomar um drinque sentada em uma de suas mesas ao ar livre é  mais que beleza acolhida, é navegar. No mar cada um faz um esporte,  surf , stand up e me dá inveja de não ser capaz.

As frutas cortadas e servidas  nas barracas, frescas e coloridas é tudo de bom; caipirinhas, mate, e o meu xodó : biscoitos Globo,  desse não escapo.

mulher standup

Na volta, dar de cara com  um grupo ótimo, ensaiando  na tenda de O Globo para  os shows que farão no final  da tarde, é a melhor surpresa. Homens de cabelos brancos , gente que se percebe  logo que  abraçaram a vida amando a música, agora estão ali, tocando sax, bateria, violão, baixo, como se no Teatro  Municipal estivessem. Junta gente  e aquele  som nos presenteia com acordes assertivos e canções  diversas. Sento e me perco em cada nota. Olhando-os assim felizes e trazendo mais beleza a praia de domingo de maio no Outono ensolarado do Rio de Janeiro, agradeço por ter saído de casa e encontrar essa festa.  Num dado  momento paro de novo e fico ali estacionada:  o ar  se perfuma com a voz de  Nana Caymmi . E não consigo me mover até a música acabar. Lembro de sua risada  mais gostosa.  E me dá saudades  de sua irreverência  nata, mulher e amiga que adoro.

Dia de Luz, festa  do Sol… e não falta nem o barquinho lá longe a deslizar.Num mar que não bate, calmo e convidativo;  me culpo por  não ter colocado o biquíni por baixo, como sempre faço e correr para um mergulho , dando  algumas braçadas desajeitadas  até encontrar o ponto certo  onde então consigo enxergar o  Cristo por entre brechas dos prédios. É um desafio que vira premio .

Essa cidade é única. E precisamos rezar para que os próximos governantes a salvem  do desmerecido abandono. O Eduardo Paes perdeu uma chance enorme de cuidar da cidade que  é muito dele,  pois mais carioca impossível,  porém ficou perdido com pouca  cidadania e muita ambição de poder.

Danou-se! E  sofremos as conseqüências.

Mas o Rio resiste. Andamos sim com medo de sair de casa, com serviços péssimos e muitos desmandos. Aquela Ciclovia em São Conrado melhor nem falar, além da  idéia de jerico, teve a pífia administração, e a corrupção reinante. Tragédia e mortes… o mar se vingou nas pessoas erradas. Irresponsabilidade e  ambição , o poder que contamina.Que mata, que  arruína.

Mas hoje é domingo e saí para procurar o lado bom da vida e a  indiscutível beleza desse  lugar cheio de encantamentos mil. Vamos prosseguir nessa caminhada pós luta…. adeus as armas. Há um mês estava por aqui, bandeira  brasileira na mão, grito  que a boca não calou  jamais e emoção de ver finalmente o povo na Rua, protestando  e pedindo seu país de volta. Naquela multidão me  encontrei , na caminhada cívica que me deixou bem comigo mesma, feliz por ainda ter vontade de  não me  omitir. Porque a omissão será sempre uma cumplicidade velada.

rui barbosa

Mas hoje é domingo …   Reina a Paz  naquela gente que em silencio comemora a luz no final do túnel.E  a  imagem de que vida segue e precisamos reabastecer , respirar  recebendo  esse momento de carinho que merecemos.  E estou muito bem  acompanhada, sabendo que Carlos Drummond de Andrade está  por ali, sentado nos lembrando  do que a poesia é capaz.E que tudo  seria sem sentido sem ela.Lá na ponta Dorival  Caymmi com seu violão nas  costas nos dá a certeza que também não existiria vida sem música.É doce morrer no mar….

Não vejo a hora passar, absolutamente abstraída , seqüestrada   por  um manto de muito azul  que me cobre.Voltando lentamente  vou escrevendo  sem caneta nem papel uma crônica que fica impressa na memória .O meu olhar precisa  dos detalhes  que me levam para   dentro de mim , em busca de   palavras que  não consigo que se percam, elas  seguirão sempre ritmando meu coração. E muitas vezes saio , para  conseguir  alcançar.

Na porta de casa percebo o melhor de tudo: esse azul que me atrapalha na verdade é a   alquimia  que  precisa  meu sangue , que  é quase   branco  quase negro  , mas de repente coroa minha vida num domingo  carioca e me  dá a certeza que o melhor lugar do mundo é aqui e agora.

Rio de  Janeiro,  minha cidade, minha paixão, minha vida sempre rica de tantas emoções. Agradeço . Felicidade é isso:  pequenas conquistas.É  tirar de um domingo qualquer  uma história que me deixa de saldo, pés esfolados dentro de um  tênis velho. Mas minha alma canta…

Por Vera Vianna

Atriz, Jornalista e Produtora Cultural

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vera blog certa 150x150 Não me Retiro...Eu sou Presente...O Retiro dos Artistas é Nosso ...

 

 

 

 

 

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