A HORA DE SEPARAR

lilas

O que acabei concluindo depois desses casamentos todos é que sou libertária ou libertina. Conheço um homem, me apaixono e caso. Se me desapaixono, se a vida leva meu coração para outros sentimentos separo. Para que entendam melhor, me recuso a ficar ali, me tornando amarga, obesa, feia destilando ódio e espalhando infelicidade. Desde cedo aprendi que não vale a pena ser infeliz e não tem dinheiro que pague. Tempo é uma moeda cara.
E fico orgulhosa de mim, por ter conseguido preservar minha inocência, minha essência, sentir o peito arder de novo, o corpo pedir outro corpo, outro cheiro, outra emoção. Não sou capaz de manter um amor aceso, ao lado de quem não me deixa ser alegre e plena. Fazendo pior, por não aguentar, começa a minar. Estou fora. O sinal de alerta acende logo e começo a ficar indiferente, a dar muxoxos a salgar a comida. Meu jeito de proteger a menina que sou e como tal, se infeliz, faço malcriação. E sabe por quê? Porque essa menina é o que tenho de melhor e ela não pode morrer. Senão a exuberante, a animada, a curiosa, romântica, intensa, fodona, essas todas que invento na cabeça, vira abóbora.   Precisa acreditar, para escapar .

menina-correndo-veraOu aguenta minha angústia em busca da felicidade, me ouve nos momentos certos e precisos com atenção e interesse, tentando me desvendar, ou fica onde está. Não vai me alcançar, então para de fingir, que vou parar também. Meu coração é terra que ninguém pisa… Tem que deslizar com cuidado. Eu o entreguei a você com as duas mãos, inteiro, fui inteira, porque é assim que deve ser. Cumplicidade, trocas. É assim que funciono. Apaixono-me, cuido, inspiro, fico inspirada, o olho acorda brilhante, dois faróis, a pele boa, o riso do nada, acho graça em fingir obedecer, até obedeço. Deixo que roube meu lençol, meu travesseiro de estimação, aturo seu porre, fico bêbada de insanidade.
Aconselho inclusive a que se apaixonem, é uma preciosa adrenalina.
Não confisco suas asas, amo ou aguento seus filhos, vou a jantares chatos, cativo seus quereres, vou ler enquanto você grita diante da TV vendo seu time ganhar ou perder. Viro a casaca, escondo a bandeira do flamengo, o verde e rosa da mangueira, embarco na sua, porque isso vai lhe fazer feliz e para mim, é tão pouco.
Mas por favor, não tenha por defeito competir comigo, por ousadia achar que mudará meus conceitos e opiniões, me convencer que ser machista é normal, não me venha chamar nenhuma mulher de puta, nem minhas amigas, nem mesmo as que não conhece, fico louca.

mala-flores
Não me julgue, não me acuse ,não me imponha porque não farei nada disso com você Me convença. Com argumentos inteligentes por gentileza. Se dormir com outra mulher, não me conte só se for importante e determinante.
Seja gentil com meus amores, me olhe como se fosse única, me respeite sempre.
Estamos num casamento, lembra? E é assim que as relações podem sobreviver ao cotidiano que vamos ser honestos, é um veneno. Mas é preciso que você entenda que se sou sua, estou marcada num espaço com limites, mas não posso perder a sensação de que posso voar.
E se tudo isso for pouco, então meu amor, não pense que vai ficar ali, me vendo murchar, calar, me encolher com medo de lhe perder. Nesse ponto, já lhe perdi. Já sofri aos bocadinhos, já dei o tempo que se precisa, me devastei, me desencantei, sinalizei, exerci a santa paciência de todo final e tendo certeza que naquela casa não mora mais um casal e sim dois pacíficos inimigos íntimos, fique certo que vou abrir meu paraquedas de emergência e quando você perceber, já estarei aterrissando em outra praia. Não me prenderei por limites acenados pelo medo. Sou comprometida com a vida.
Porque eu tenho certeza, que a qualquer momento o sol virá me beijar e eu vou voltar a gostar de mim, quando inspirada pela sensação de liberdade, estarei recolhendo os pedaços do amor que ficou, guardando na memória tudo que foi bom, arquivando as fotos, ouvindo as canções, chorando porque faz parte, fazendo das lembranças apenas um lugar seguro. Depois vou fazer o que eu há de melhor nesse intervalo: sair com as amigas para beber seja lá o que for, ver todos os filmes que perdi porque estava ocupada lhe fazendo feliz, ler todos os livros que larguei pela metade, dormir com os homens que me despertam desejo, sem culpa, escrever sem censura, animando outras mulheres, aquelas que estão abertas querendo o jogo da vida, que quebraram as asas e estão ali a olhar, tristemente sem saber o que fazer. Essas mulheres, minhas amigas ou não, talvez leitoras apenas, ficarão contentes. Ao saber que existem outras soltas pelo mundo, libertas do fel, a procura de um novo pote de mel, e que ele existe em algum lugar. Alegres porque novamente voltou para sua casa que é dentro de si mesma. Escapou, reagiu a sabotagem. Enxergou o limite e resolveu tomar as rédeas de seu destino. Não se deixou afogar, navegou procurando novos horizontes.

menina-balao-veraA hora da partida é mesmo uma escolha que deixa marcas, rosto molhado, dias nebulosos.
Sangramos por dentro.
Mas encontramos pelo caminho, o bando dos desesperados, que nos certifica que não estamos sozinhos. Nossa vulnerabilidade recebe apoio, vida segue e o tempo se encarrega de ir apagando os vestígios.  Abandonou-se a trincheira para manter a sanidade.
Minhas decisões drásticas, sempre foram em nome do Amor. Confuso? Sei que é, mas veja bem, quando declaro isso, já não havia nenhum traço desse amor que nos faz ver as cores do mundo. Havia sim, um bolo na garganta, um silêncio ensurdecedor, um desalento. Um desamparo, um convívio com a amargura. Um sorriso forçado, um gozo fingido. Na casa antes tão alegre, reina a discórdia. Então fico assim, refazendo cada canto meu,a memoria remendando, bordando, com total controle do meu tempo, as voltas com meus inventos vou cancelando os arrependimentos, até  que numa festa alguém  me tire  de novo para dançar. Já refeita, vou dançar até o sapato pedir para parar.*
*Chacal.

Por Vera Vianna

siga @atrizveravianna

vera blog certa 150x150 Não me Retiro...Eu sou Presente...O Retiro dos Artistas é Nosso ...

 

 

 

 

 

http://blogveravianna.com.br/author/admin/

Quando trabalhava no Jornal do Brasil ao entrevistar Nelson Rodrigues foi convidada para protagonizar o filme ENGRAÇADINHA, de seu livro ASFALTO SELVAGEM, assim, ingressando na carreira artística. Hoje atriz , jornalista, blogueira e escritora.

 

1 comment

  1. Minha querida… voce sempre me supreendendo! Como fica mais bonita em sua revista minhas cronicas! Como As palavras ganham dimensão, força, e beleza, na sua edição! Honrada, como sempre e feliz de ter essa parceria.
    BORA SER FELIZ!!! bjsss e meu obrigada!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *