A CAIXA PRATEADA… por Vera Vianna

 

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A caixa prateada , luxuosa embalagem de um creme de  marca francesa estava ali no banheiro ,  entre todos os cosméticos. O brilho  do papel  insistia em lhe acompanhar.Na sua cabeça, o barulho do motor de uma avião  a fez estremecer.Escovou os dentes e o rosto amassado fez com que sorrisse . Estava ali na pele, a noite mal dormida. Voltou para a cama se jogou e sentiu o cheiro.Todos os cheiros. Segurou o travesseiro contra o  nariz e aspirou. Tinha o perfume. O perfume dele. Nos  lençóis amassados, as marcas não deixavam dúvidas. Aquele quarto  agora, depois dessa semana, guardava muitos anos … perdera as contas. Poderia ser 15, 10 ou o infinito.

Ficou olhando para o teto, olhos  abertos sem saber o que sentia. Era muito sentimento,plenos de confusão; mas o coração  batia mais forte e o cansaço reclamava. Sua alucinada vida esperneando  para não ir à lona, já não  sabia em que round, entre um gongo e outro, de repente trouxe  de novo   esse resgate mais que merecido.

Foi fechando os olhos devagar, vencida, mas com certeza dormindo ou  acordada, nada se perderia.

Nem uma hora, nem um dia, nem uma palavra, nenhum olhar.

Ao redor a cena do bendito crime.Calcinha jogada no chão, um pé de sandália, um jeans amarrotado, uma  camisola curtinha, de tecido  transparente, que fora vestida por teimosia ou puro  charme, enquanto ele avisava:Pra que ? Vou arrancar.  Mas a intenção era mesmo essa.Tudo  permanecia ali intacto como se fosse preciso preservar  o  local .Sorriu avaliando a bagunça. Se estendia pela sala, e se instalava naquela cabeça desordenada, desorientada. Não queria avaliar nada. Que importância teria? Fora feliz e agora descansava  no meio do caos, ainda de cortinas fechadas, embora já fosse dia.

Surpreendente esse homem. Insistia no amor e agora viera em busca de um inventário. O resultado continuava pendente. Não tinha morte nem corpo. E nenhuma mudança. O travesseiro dele, que permanecia contra o seu nariz, era uma tentativa de se drogar.    Aquele cheiro iria  ficar ali, levando-a a cada palavra trocada, a cada faísca, a cada beijo, a todos os  momentos.

A caixa  prateada agora vazia, estava repleta não de  creme  rejuvenescedor, mas de uma juventude que julgara já arquivada.

Tinha mais brilho sua pele, a mesma exuberância dos  anos  idos, gargalhadas  e sorrisos cúmplices, e muita fantasia. Deixou o creme na prateleira e  a caixa ali, bem em sua frente  onde lia e relia. Apenas  o nome da marca ,  com a qual  formava algumas palavras  e repetia baixinho: Amor, desejo, tesão, beijo, orgasmo, sono, corpo, dúvida, confusão, vida, distância, avião.

Adormeceu sem querer, e teve um pesadelo. Entrara num labirinto de  ruas estranhas, chão de terra e não encontrava sua casa;perguntava a um e outro e não obtinha resposta. Corria, corria, sem achar nenhuma entrada. Acordou de supetão, num susto e um  imediato alivio .Precisou de alguns minutos, para descobrir que estava em lugar seguro. Olhou o relógio deu um pulo da cama, entrou no chuveiro e se pôs fresca e perfumada  . Freud  explica pensou  se enxugando. Com uma ponta de melancolia saiu. Precisava dar o último beijo de adeus naquele homem que viera num cavalo branco, não ,não gente  acabaram-se  os contos de fadas, foi no aeroporto mesmo e num avião de  carreira.Iria  apenas se jogar em seu  pescoço, beijar sua boca e murmurar só para ele ouvir: Obrigada, fui feliz.

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De volta teria aquele brilho que  seguro em seu olhar, encantado e sem dizer uma  palavra  iluminava o seu rosto. Ali   estava dito tudo.  Um adeus que não sabia o tamanho.  Poderia ser até logo, até muito, até não sei.Ah l’amore l’amore… quante cose fa fare l’amore ..Isso é música de Ornella Vanoni, mas cabia.

A despedida foi alegre, como deveria ser.  Sem aeroporto, odiava isso. No hall do apartamento da amiga . Abraçaram-se e ficaram ali, um tempinho, um sentindo a respiração do outro, beijou o rosto, beijou a boca, beijou.

O elevador descendo e ela  parada ali, ainda ouviu a voz dele gritando e se distanciando:  I Love youuuuu!Gritou de volta com a voz que lhe restava no peito arfante.  Esperou o elevador descer e uns minutos para se  recompor.

Finalmente entrou e pediu para a dona da casa, a amiga cúmplice e responsável por tudo aquilo: agora me dá aquela taça de prosecco. As quatro horas da tarde de uma segunda-feira se pegou bebendo para comemorar… ou seria para se acalmar?

Depois  colocou a bolsa no ombro e avisou: Estou indo!

Caminhou muitos quarteirões lentamente  sem olhar  para lugar nenhum e sem saber para onde ia. Poderia estar em qualquer cidade, em qualquer dimensão.Seus pés não estavam no chão,  flutuava, cabeça misturada com coração que avisava : estou aqui,exatamente na boca. Tentava voltar ao normal, limar o desassossego , era tudo um sonho, hora de acordar .Tinha tanto o que fazer dia seguinte , pensou. Precisava se curar, tornar a  ficar inteira,  como antes daquele telefonema que a deixou estupefata.Mas fora tudo o que teria que ser. Sem desperdício.E antes mesmo de sua chegada, tinha certeza do  final. Não  estava preparada para abrir mão de sua tão sofrida e conquistada liberdade. O tempo se encarrega de colocar cada coisa em seu lugar.Assim foi e assim permaneceria.

Chegou em casa sem perceber, nem sabe como  acertara o caminho  foi guiada talvez pela brisa do mar.  Abriu a porta e de novo se deparou com todos os vestígios. A caixa prateada  permanecia lá, como um símbolo, brilhando, agora fazia parte  da decoração  e não sabia porque a havia escolhido como referência. Ah! lembrou. Continha promessa de juventude. Uma caixa de pandora.

No celular uma mensagem digitada   à caminho :Miss you already .Leu e releu.  Tinha certeza.

Os amores vão adquirindo outras formas, mas são para a vida toda.  Mantas tecidas, com linhas de muitas cores. Que cuidados, não desbotam.

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Colocou de novo a mesma  calcinha delicadamente florida, antes de se jogar outra vez naquela cama desfeita,  sua pele  precisava daquele toque . A caricia que ficara ali guardada.

Por Vera Vianna

Atriz, Jornalista e Produtora Cultural

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